Ser mãe solteira não é mais um tabu em nossa sociedade. Isso não significa que a tarefa de assumir integralmente a criação do filho tenha ficado mais fácil
Publicação: 01/07/2011 20:06 Atualização: 01/07/2011 20:59
Gláucia Chaves // Especial para o Correio
Laila às vésperas do parto de Juan: muitos planos para o futuro
No meio da madrugada, o bebê chora no quarto. Você se levanta, cambaleante e sonolenta, para ver o que está acontecendo. Pega seu filho no colo, espera que os soluços dele passem e volta a dormir. A cena se repete a cada chorinho: o outro lado da cama está vazio, por isso, não há com quem revezar a vigília noturna. Ser mãe solteira já foi considerado coisa de mulher promíscua, irresponsável e que não dá valor à “moral e aos bons costumes” da sociedade. Hoje, porém, a ideia de criar uma criança sem a presença do pai já não é tabu. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2010, estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mulheres sem cônjuge e com filhos representam 17,4% da população brasileira.
Sem condições financeiras de fazer a produção ser realmente independente, muitas mães solteiras precisam buscar refúgio na casa dos pais — parcela que vem aumentando nos últimos anos, aponta o IBGE. É o caso da estudante Laila Cristina Reis Toledo, 24 anos, mãe do pequeno Juan, nascido na semana passada. Ela e o pai da criança foram pegos de surpresa pela gravidez. “Em um primeiro momento, nós decidimos morar juntos. Isso ajudaria a nos organizar para, futuramente, oficializar a união”, conta a estudante.
Conflitos e desentendimentos fizeram com que o namoro acabasse. A decisão de voltar à casa dos pais parecia o melhor a ser feito. Se, por um lado, o pequeno Juan perdeu a chance de ter um quarto só para ele, por outro ganhou uma rede de proteção do lado materno da família.
A jovem precisou rever alguns planos, a começar pela faculdade, uma vez que os exames finais coincidiriam com o trabalho de parto. Otimista, ela vê na gravidez uma força motriz para a realização de seus sonhos, como montar o seu próprio lar. Contudo, não há como ignorar a mágoa de saber que o interesse pela chegada do rebento não é compartilhado com o futuro pai. “Quando a gente estava junto, ele recebia bem as informações que eu passava, mas não procurou nada por conta própria”, diz.
Amadurecimento em dobro
Juliana deixou a adolescência para trás para cuidar de Natan, hoje com 8 anos
Juliana Moreira Jardim tinha só 16 anos quando engravidou. “Foi um choque porque adolescente tem uma azeitona no lugar do cérebro. Você tem a sensação de que nunca vai acontecer com você”, relembra a estudante, hoje com 24 anos. Além de ter que se acostumar às mudanças na antes descompromissada rotina adolescente, Juliana ainda precisou ter uma dose extra de maturidade para enfrentar as complicações de uma gravidez de risco.
“Tive que terminar o primeiro ano do ensino médio em regime domiciliar, porque eu tinha queda de pressão e desmaiava sempre”, relembra. Os trabalhos finais foram foram feitos em casa e entregues na escola, para que a mãe pudesse dar atenção ao filho, que nasceu prematuro.
Quando Natan veio ao mundo, Juliana e o companheiro tinham um ano de relação. O casal permaneceu unido nos três anos seguintes, mas a ruptura foi brusca. As tentativas de compartilhar a guarda não foram bem-sucedidas e a distância aumentou. Aos poucos, os questionamentos do menino com relação à ausência paterna deram lugar ao conformismo. “Se passo um fim de semana sem vê-lo, já sinto um aperto no peito, porque perdi coisas que ele fez. Fico imaginando como deve se sentir uma pessoa que gerou uma vida e a largou de mão”, confessa Juliana.
Com a ajuda da mãe e das amigas, ela garante que não tem problemas maiores em administrar a rotina. Porém, como não dá ficar com o filho o tempo inteiro, o jeito é ter jogo de cintura para equilibrar as diferentes influências que o pequeno recebe. “Durante a semana, ele fica mais tempo com a minha mãe do que comigo, e ela tem o jeito dela de educar”, pondera. “Acaba que todo mundo mete o dedo na educação dele.”
Liberdade cerceada
Gabriela Azevedo não se sentia preparada para uma "vida adulta", mas faz o melhor possível para educar Ana Clara.
Da amizade em sala de aula, no ensino médio, surgiu o namoro. Um ano e meio depois, a gravidez. Até Ana Clara completar um ano, os dois continuaram a relação. Porém, os desentendimentos, cada vez maiores, ficaram insustentáveis. “A relação muda muito. Quando são duas pessoas mais velhas já é difícil, imagina duas crianças tendo que administrar problemas de adultos?”, reflete Gabriela Azevedo de Arruda, 20 anos. Até então, a maior preocupação da estudante era escolher a roupa para a próxima balada. Agora, a realidade é bem diferente: todos os pensamentos e planos são para a filha.
Como todo adolescente prestes a sentir o gostinho de liberdade, Gabriela conta que a gravidez não fazia parte dos seus planos. A matrícula na faculdade e a as saídas de fim de semana tiveram que ser substituídas por fraldas, consultas médicas e canções de ninar. Enquanto o convívio social sofreu uma enorme retração, as responsabilidades cresceram em proporão inversa — afinal de contas, agora tudo tinha de ser pensado em dobro. “Você tem que acompanhar os exames, tomar os remédios na hora certa. Não dá para ter o comportamento infantil de esquecer alguma coisa”, ressalta.
Fonte: http://www.correiobraziliense.com.
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