onsdag 10 augusti 2011

A vingança das feias


Doda Elektroda. QI 156, 4 pontos abaixo do de Albert Einstein.

Em 1953, o sucesso de Marilyn Monroe em “Os Homens Preferem as Loiras” incomodou tanto que a vingança das morenas veio no mito da loira burra.
Mas o mito trouxe consigo algo maior: A concepção de que beleza e inteligência são incompatíveis.
Não importa se é loira, morena, ruiva ou azul. Se a mulher for indiscutivelmente bonita, a primeira pedra jogada contra ela, mesmo sem abrir a boca, será a da falta de inteligência.
A bela, que além de mulher, ainda caiu no erro de ser bonita, tem que se superar 200 vezes mais que um homem, ou que uma mulher desprovida de beleza (só pra não dizer feia que não fica legal, né?). Porque na primeira escorregada, carregará nas costas o título de burra até o fim dos seus dias. Ou de sua beleza.
Nem todas nascem Brigitte Bardot, e para quem passou reto pela fila da beleza, é difícil aceitar que enquanto gasta dinheiro e tempo para consertar o inconsertável, há quem o único trabalho que teve para ser linda, foi o de nascer.
Então é quase como uma afronta pessoal ter essa verdade esfregada em sua cara diariamente pelas bonitas. É preciso puní-las por isso.
E se a mulher além de linda, souber que é linda, a raiva aumenta. Pior do que uma mulher bonita, só uma que sabe que é bonita (E não faz o menor esforço para esconder).
Aí então ela passa do nível “burra” para o “burra, vagabunda e sem conteúdo”. É um up que só é conquistado quando a bonita resolve se aproveitar de sua beleza. Se encaixam nessa categoria, mulheres que fazem algo com a dádiva (ou maldição) que ganharam. Seja para trabalho ou passatempo (Modelos, capas da Playboy, etc). Se usar a beleza a seu favor, não escapará das garras afiadas das feias.
Não estou querendo dizer que a Juju Panicat secretamente é PhD em física quântica ou que a Carla Perez se faz de completa imbecil, mas seu livro de cabeceira é “O Universo numa Casca de Noz”. Mas uma coisa, temos que concordar: Independente de sua inteligência, ou da possível falta dela, elas souberam usar a beleza que possuíam, e a prova disso é que estão ganhando por mês mais dinheiro do que eu e você ganhamos juntos por ano. Como se pode chamar uma pessoa dessas de burra?
Beleza e inteligência não são opostos. A presença de uma, não é o decreto de ausência da outra. Assim como usufruir da própria beleza, não anula a possibilidade da pessoa usar a cabeça para algo além de pentear o cabelo.
Burrice é julgar a capacidade mental de alguém pela sua aparência.

tisdag 9 augusti 2011

Você conhece a distimia?

No Jornal Placar de hoje, José Vicente Bernardo escreveu um trechinho bem interessante, que reproduzo aqui:


“Não faz muito tempo, fiz uma matéria sobre mau humor para a TV Bandeirantes, onde eu era repórter. A ideia surgiu porque todo mundo conhece pessoas insuportáveis, inimigas da alegria, da simpatia e da boa educação. Não sei se isso serve como atenuante, mas descobri que esse comportamento negativo pode ser uma doença, um transtorno mental. Chama-se distimia. É um tipo mais brando de depressão, mas torna a pessoa rabugenta, irritada, insatisfeita e infeliz. A superação de um eventual problema não melhora em nada o humor do distímico. O doente só enxerga o lado ruim de tudo e de todos, não sente prazer nem nos momentos de glória. Um chato de galocha, enfim. O tratamento é à base de medicamento e terapia."  Por que será que eu lembrei disso agora?    


fredag 5 augusti 2011

Eu digo: "Go, go, go!"

TODO MUNDO já falou a sua, agora chegou a vez desta Darlene Glória do Itaim dar seu pitaco sobre a morte da Amy.

Bem, um favorzão sabemos que ela nos prestou: expôs a ignorância de críticos tapuias sobre a dependência de drogas. Todos querem ser Cameron Crowe, mas ninguém conhece o básico sobre o problema que ora mata (Syd Barrett, Keith Moon, John Bonham), ora conserva misteriosamente (Richards, Wood, Osbourne, Brian Wilson) os ídolos da juventude. Também vimos no episódio da perda de Amy que psicólogos e psiquiatras talvez não sejam os profissionais mais indicados para estar no front de batalha contra a doença.

É disto que estamos falando. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), alcoolismo e dependência química são do-en-ça, não fraqueza de caráter ou consequência de um trauma de infância.

Da mesma forma que você não julgaria um diabético por comer um doce, não há juízo moral a ser feito sobre a tragédia. Muito admira ainda estarmos nesse estágio da conversa, como se a parada que Amy enfrentou tivesse sido um clássico do futebol, em que metade da torcida se coloca a favor e a outra contra.

Não vamos nem comentar a canalhice do "Pânico". Tomara que nunca mais os deixem voltar ao Reino Unido e que recebam um carimbo no passaporte dizendo: "Visto recusado por conduta desumana".

Amy Winehouse não morreu jovem -e de causa 100% contornável- por ter sofrido maus-tratos na infância, carência afetiva, dor de corno ou por "não ter suportado o peso da fama", como li em algum lugar. Geralmente, o peso da fama é dulcíssimo, dor de corno passa logo, maus-tratos todos sofremos, a infância, com raras exceções, é um horror e Amy, acabei constatando no YouTube depois de sua morte, era uma florzinha, brincalhona, imatura, inocente, de bem com a vida, não parecia ter grandes problemas existenciais.



Morreu exclusivamente por conta de uma doença incurável, progressiva e mortal que acomete entre 5% a 12% (dependendo do estudo) dos bebedores adultos.
Tomava todas porque achava graça, não para curar dores ou preencher vazios. Bebia e se drogava porque, no início do processo, o barato é "bão" e casa beníssimo com gente gregária.

O problema é que você vai mudando a maneira de beber e de ingerir drogas, chega uma hora que quanto mais, melhor, de preferência até apagar no sofá, na cama ou no banheiro da rodoviária.

Existem gradações na dependência, mas dava para perceber que a de Amy era barra pesada. Estava na cara que ela tinha começado cedo. Leva mais de cinco anos para o processo se instalar no metabolismo, menos para as mulheres.

E, hoje sabemos que, quanto mais cedo a pessoa começa a beber ou a tomar drogas, mais profunda e irreversível será sua degeneração.
Uma vez dependente, sempre dependente. Mas é importante saber que é possível mudar hábitos, pessoas e lugares e voltar a ter uma vida tão produtiva quanto encantadora.

Certa vez, Rita Lee contou que para ela constitui um problema ir a festas. Para agradá-la, porque ela é a Rita Lee, o pessoal vem e coloca "presentinhos" em seu bolso sem que ela peça ou mesmo se dê conta.

Me pergunto que tipo de bafafá os frequentadores dos pubs de Camden não deviam fazer em torno da presença fácil de quem escreveu o hit "Rehab".

O paradoxo de Amy

Stéphanie, minha enteada, tem 11 anos: ainda é menina, mas é já moça. Assim que foi informada da morte de Amy Winehouse, ela veio até minha escrivaninha e, simulando o choro inconsolável de um nenê, perguntou: "Você está sabendo que morreu minha cantora preferida?".

Justamente por ela simular o choro e se esforçar para ser engraçada, pensei que devia estar sofrendo muito. A coisa se confirmou no meio da noite, quando Stéphanie acordou, e, para que reencontrasse o sono, foi preciso que alguém conversasse com ela sobre a vida e a morte de Amy.

Teria gostado de poder oferecer a Stéphanie uma boa explicação pela dureza da vida e da morte de sua cantora preferida -por exemplo, dizer que Amy teve uma infância muito triste, que nada em sua vida adulta pôde compensar; ou, então, que ela teve sorte na vida profissional, mas não no amor, e se perdeu nas drogas e no álcool por desesperos sentimentais. Mas o que sei da infância e dos amores de Amy é só fofoca.

Sem mentir nem inventar, melhor deixar Stéphanie lidar com este enigma: alguém pode ter um extraordinário talento, gostar de exercê-lo, alcançar sucesso e reconhecimento, amar e ser amado por um ou mais parceiros e, mesmo assim, esbarrar num vazio que nada consegue preencher.

Stéphanie também tinha lido sobre a maldição dos 27 anos, que, antes de Amy, teria pego Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain etc. Como é normal na sua idade, ela parecia sensível à "glória" de morrer jovem (ou talvez de não viver até se tornar tão chato quanto os adultos).

Foi fácil desvalorizar a morte precoce mostrando que ela é, justamente, um ideal muito antigo: o rock apenas retomou o lugar comum romântico do poeta que vive tão intensamente que, como Ícaro, queima suas asas e cai antes da hora, em pleno voo.

Em suma, eu não tenho nada contra viver intensamente; ao contrário, artista ou não, acho que a gente deve viver da maneira mais intensa que der.



Mas resta o seguinte: a ideia de que viver intensamente consistiria, por exemplo, em encher a cara de absinto ou ópio é velha de 200 anos.
Agora, há uma coisa que pensei e que não disse a Stéphanie: no fundo, para mim, a história de Amy tem um valor pedagógico, não só (obviamente) como exemplo dissuasivo ("Olhe o que pode lhe acontecer se você beber ou se drogar"), mas também como exemplo "positivo".

Como assim, positivo???
Concordo, a morte de Amy é um horror e uma estupidez, mas também lembra que viver é uma coisa séria, com apostas e riscos sérios, a começar pelo risco de perder a própria vida antes da hora. Você dirá: "Alguém duvida disso?". Pois é, constato que há um monte de gente tentando convencer nossas crianças de que a vida é feita de gritinhos, compras e namoricos que só servem para trocar trivialidades online com amigos e amigas.

Até a morte de Amy, eu pensava que o cantor preferido de Stéphanie fosse Justin Bieber. Ora, é possível que Bieber seja uma espécie de Dorian Gray (uma cara de porcelana que esconde dramas e anseios humanos), mas o fato é que ele promove uma imagem de bom moço num mundo intoleravelmente cor-de-rosa.

"E daí?", dirão alguns pais, "não seria esse o adolescente ideal com quem deveríamos gostar que nossas filhas saíssem, em sua primeira ida ao cinema sozinhas com um garoto?". E acrescentarão: "Você quer o quê, que sua enteada seja parecida com Justin Bieber ou com Amy Winehouse?".

Claro, é um golpe baixo: ninguém quer que sua filha acabe como Amy. Mas devolvo a pergunta: será que Justin Bieber é mesmo melhor? Stéphanie será mais protegida se ela permanecer numa pré-adolescência à la fã de Justin Bieber. Mas protegida de quê, se não da própria vida? Entre imaginá-la errando para sempre num corredor de shopping e imaginá-la numa balada que pode acabar na sarjeta à la Amy, a escolha não é fácil. E, na comparação, Amy passa a simbolizar minha esperança (e meu receio, indissociavelmente) de que Stéphanie cresça e se torne mulher, com desejos próprios, fortes.



É o paradoxo de Amy: o que você prefere, uma filha que se perca tragicamente nos excessos do desejo ou uma filha que chegue à vida adulta sem ter conhecido outros desejos do que os que surgem nas conversas sobre marcas de mochilas e sapatos?

ccalligari@uol.com.br
@ccalligaris

O lado B de Amy Winehouse

Drogas, agressão à pele em forma de enfeite, perda da autoimagem. Os fãs se identificavam com seu comportamento, mas não notaram a gravidade de sua doença psiquiátrica
Antonio Carlos Prado



Não houve glamour na vida e muito menos na morte de Amy Wine­house. Houve doença, uma intrincada enfermidade psiquiátrica denominada Transtorno da Personalidade Borderline – suas portadoras (predomina em mulheres na proporção de gênero de três para um entre a população mundial adulta) são invadidas constantemente por avassaladores sentimentos imaginários de abandono e sofrem terrível desmoronamento do ego, desintegração da identidade e da autoimagem. São impulsivas, mantêm suas relações interpessoais como um elástico que se tensiona ao máximo, as suas emoções e humor são fios desencapados em curto-circuito. Sentem-se esburacadas e autolesionam a pele para aplacar a dor da alma, sempre encharcada pela sensação, quase nunca real, de perda de pessoas que lhes são queridas. Assim, nesse inferno psíquico, viveu Amy Winehouse, falecida em Londres no sábado 23 e cremada na terça-feira segundo os preceitos religiosos judaicos. O funeral ocorreu sem que se soubesse com precisão a causa da morte, e isso só virá a público em algumas semanas, assim que a médica legista Suzanne Greenaway concluir os exames toxicológicos das vísceras retiradas do cadáver da cantora. Seja qual for a causa, no entanto, um fato está dado: mais do que simplesmente morrer, Amy descansou um corpo maltratado, um cérebro embotado e um músculo cardíaco esmagado pelo uso ininterrupto, abusivo e nocivo de vodca e coquetéis de outras drogas que chegaram a cruzar cocaína, heroína, anfetaminas, ecstasy e até quetamina (anestésico de cavalo). Em outras palavras, ainda que a causa mortis não revele overdose, sua precoce partida aos 27 anos foi acelerada pelo Transtorno de Abuso de Substâncias como um transatlântico que se dirige loucamente para espatifá-lo contra um iceberg.



No campo psicobiológico, aquilo que se chamou de “ferramenta” pode ser traduzido tecnicamente pelo funcionamento descompassado no cérebro do neurotransmissor serotonina. Tentativas recorrentes de suicídio são traços do transtorno e estudos recentes constataram concentrações mínimas do ácido 5-hidroxiindolacético (5-HIAA, metabólito da serotonina) em pessoas deprimidas que haviam tentado suicídio. No campo ambiental, pesa na infância a negligência ou a desatenção dos pais, abusos físicos, emocionais ou sexuais da criança. Pois bem, tentativas de suicídio – praticamente crônicas – não faltaram na vida da cantora ao utilizar drogas e cruzar vodca (sua dependência química prevalente) com medicamentos (cerca de 6% das borderlines que tentam suicídio conseguem consumá-lo, aproximadamente 60% de mulheres em ambientes institucionais psiquiátricos ou prisionais são borderlines). Quanto ao ambiente, sabe-se que seu pai, Mitch, disputava desde cedo com ela a atenção da mãe, Janis.

Na idade adulta, o que se viu foi novamente o pai taxista tentando pegar carona na fama da filha a ponto de lançar-se como cantor, atitude que arrastou Amy para uma profunda depressão – tal comportamento de Mitch voltou a ser criticado nos últimos dias pela imprensa inglesa e americana.



Nos buracos do cenário borderline, cenário com simbólicos pregos emocionais por todos os cantos, a portadora do transtorno vai pondo tranqueira atrás de tranqueira na busca desesperada de preencher o seu vazio e aliviar o “torno psíquico” que não cessa de apertar. É comum encontrar-se mulheres presas que são borderlines e deveriam estar em tratamento e não encarceradas – acabam presidiárias porque, na ânsia de se “colarem” ao outro para ter uma identidade psíquica, muitas vezes se “colam” em tranqueiras traficantes. Elas anônimas, Amy Winehouse famosa, a história é a mesma. A cantora, no auge de uma de suas crises, casou-se em 2007 com o produtor e traficante (olha aí!) Blake Fielder-Civil. O relacionamento durou dois anos e a maior parte dele Blake passou na cadeia – e lá continua por roubo e posse de arma que não era verdadeira, era de brinquedo (ele não foi autorizado a sair da prisão para ir ao funeral).

Agora, funeral feito, o que não faltam são vozes a dizer que Amy errou, não se tratou medicamente, não aproveitou as internações: “tentaram me mandar para reabilitação/eu disse não, não, não/ele tentou me mandar para reabilitação/mas eu não vou, vou, vou”, diz uma de suas famosas canções, chamada “Rehab”. Os que agora a criticam, e certamente entre eles há os que depositam garrafas de vodca diante de sua casa vazia, precisam saber que Amy era, em essência, enferma. Em “Beat The Point To Death”, ela cantou: “além disso estou doente/de ter de encontrar alguma paz”. Amy hoje tem paz, o “torno” borderline afrouxou-se, a montanha-russa borderline cessou de despencar, mas é a inútil paz dos mortos, não a fecunda paz dos vivos. De fato, não houve nenhum glamour em sua vida e muito menos em sua morte.

http://www.istoe.com.br/reportagens/149017_O+LADO+B+DE+AMY+WINEHOUSE

onsdag 3 augusti 2011

A vida depois do aborto

Nas próximas semanas, o STF deve decidir sobre a interrupção da gravidez de fetos sem cérebro. ISTOÉ mostra como vivem as mulheres que abortaram legalmente em 2004, quando o procedimento foi permitido por alguns meses.
TRAUMA
Camila, 27 anos, interrompeu a gestação de um
feto anencéfalo e decidiu não ter mais filhos 


A paulistana Camila Mo­reira Olímpio, 27 anos, deu pulos de alegria quando engravidou. Antes de completar três meses de gestação, sua casa já estava abarrotada de roupinhas de bebê. O enxoval era todo rosa porque ela nunca teve dúvidas de que a criança que carregava no ventre era uma menina. Até o nome estava escolhido: Stacy. Com o berço e o guarda-roupas instalados no quarto, Camila e o marido foram construindo sonhos. “Daí veio a desilusão. Fui fazer o ultrassom e o médico disse que o meu bebê não tinha calota craniana nem massa encefálica”, lamenta Camila. “Desci da maca e saí correndo do posto de saúde. Parei na beira da avenida. Ali, vi o meu castelo desabar.” Ela descobriu que a criança que tanto amava era mesmo uma menina. Mas constatou, também, que Stacy não sobreviveria porque sofria de uma grave má-formação fetal chamada anencefalia. Uma anomalia congênita irreversível e incompatível com a vida.

“E agora, o que eu faço?”, perguntou aos médicos. Eles explicaram que levar a gravidez adiante lhe traria mais riscos do que numa gestação comum. Camila ficou dez dias enfurnada em casa. Não abria a janela, não tomava banho, não penteava o cabelo, não comia, não levantava da cama. “Entrei em depressão. Estar grávida e saber que não teria minha filha comigo estava me matando”, lembra. “Se eu não antecipasse o parto, perderia a chance de ter outro filho porque eu morreria junto.” Camila decidiu se valer de uma liminar concedida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, que permitia que grávidas de anencéfalos fizessem aborto.


“Obrigar uma mulher a passar meses, entre o diagnóstico e o parto, dormindo e acordando sabendo que não terá aquele filho, é impor a ela um imenso sofrimento inútil. Isso viola o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana”, afirma o advogado Luís Roberto Barroso, da CNTS. “É uma situação equiparável à tortura. Interromper ou não a gestação deve ser uma opção da mulher e de seu médico. O Estado, o Judiciário ou quem quer que seja não têm o direito de interferir nessa decisão.” Barroso fundamenta a ação em mais dois pilares. Primeiro, alega que a interrupção da gestação de um anencéfalo, tecnicamente, não pode ser considerada aborto porque o feto não é uma vida em potencial. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que define a morte é a falta de atividade cerebral e, como o anencéfalo não tem cérebro, ele seria um natimorto. Um dos argumentos dos grupos contrários é que, caso a gestação chegue aos nove meses, os órgãos do bebê podem ser doados. Mas nem a OMS nem o Conselho Federal de Medicina recomendam a doação porque esses órgãos não são de boa qualidade.

A outra tese de Barroso é que a lei brasileira permite o aborto em duas ocasiões: se a gravidez é resultado de estupro ou se há riscos para a mãe. “Interromper a gestação de um feto anencefálico é menos do que nas duas situações já previstas pelo Código Penal, pois tanto no caso de estupro quanto no de riscos para a mãe, o feto tem potencialidade de vida”, relata o advogado. “O nosso Código Penal não contempla a hipótese do feto inviável porque foi elaborado em 1940, quando o diagnóstico da anencefalia não era possível.” Paulo Fernando da Costa, vice-presidente da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família, entidade católica das mais fervorosas no combate à ação da CNTS, contesta. “Não podemos condenar uma pessoa à morte. Se essa proposta for aprovada, será aberta uma janela para a legalização completa do aborto”, afirma. “Existem projetos sobre o tema tramitando no Congresso Nacional desde 1991. 
O que esses grupos feministas não conseguem no Legislativo, tentam via Judiciário”.


IGREJA
Dom Petrini, bispo da CNBB, é contrário ao aborto

Costa conta que a Associação fez um filme sobre Marcela de Jesus – uma menina do interior paulista, que morreu em agosto de 2008, com 1 ano e 8 meses – e está entregando aos ministros do STF cópias do DVD. A história de Marcela se tornou uma das principais bandeiras de grupos religiosos na cruzada antiaborto. “É uma bandeira desumana. A Igreja Católica explora esse caso para mistificar uma tragédia. Marcela não era anencéfala. Tinha merocrania”, garante o geneticista Thomaz Gollop, professor da Universidade de São Paulo e coordenador do Grupo de Estudos sobre o Aborto. O médico explica que o que distingue esse quadro da anencefalia é a presença de um cérebro muito rudimentar – um pouco mais de massa encefálica, coberta por uma membrana. Isso faz com que o indivíduo sobreviva um pouco mais. Mas não faz com que tenha cérebro nem que interaja. “Quando a anencefalia é diagnosticada, não estamos discutindo a vida, mas a morte certa”, diz Gollop. “Tenho esperança de que, assim como em decisões recentes, o Supremo respeite a laicidade do Estado”.

Além de refutar a legitimidade do Supremo, justificando que a Corte tem se debruçado sobre questões que seriam de competência do Legislativo, a Associação questiona a postura do ministro Marco Aurélio. “Entramos com uma representação na Procuradoria-Geral da República alegando a suspeição do ministro. Anexamos reportagens em que ele manifestou opiniões favoráveis ao aborto”, declara Costa. Desde 1989, mulheres têm sido autorizadas pela Justiça a interromper a gestação de fetos anencéfalos. A diferença agora é que, se o Supremo acolher a proposta da CNTS, elas não precisarão mais recorrer aos tribunais e serão poupadas de meses de angústia aguardando uma sentença. Os hospitais públicos, assim como os planos de saúde, terão de lhes oferecer a assistência necessária.

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